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Catassol

Na sequência desta quase obsessão para detetar utilidades nas ervas silvestres espontâneas, tenho andado há um rol de tempo a tentar “meter conversa” com o catassol, reles planta ruderal que cresce por todo o lado, à beira dos caminhos, nos campos cultivados e mesmo em zonas urbanas onde surge uma nesga de terreno livre. O facto é que estou cada vez mais convicto de que todas as plantas podem ser úteis ao ser humano. Nalgumas, essas utilidades encontram-se plena ou parcialmente identificadas. Noutras, a maioria, ainda não. Neste entretém, aguço a curiosidade, e dedico-me, à minha maneira, a pesquisar, a investigar, a tentar descobrir. Esta motivação de simples amador (entenda-se: aquele que ama) leva-me a observar, a experimentar, a procurar saber mais e a surpreender-me face à fenomenologia de cada ser vegetal.

 

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O catassol é uma Quenopodiácea que dá pelo nome científico de Chenopodium album. A família das Quenopodiáceas é numerosa e tem alguns membros consagrados como é o caso da erva-formigueira, Chenopodium ambrosioides, a qual já mereceu uma croniqueta (ver “As Plantas Nossas Irmãs”) ou a Chenopodium bonus-henricus que um dia há de também integrar o meu “inventário”. Mas valha a verdade que se diga que o catassol, erva daninha e mal cheirosa não me pareceu, à partida, que tivesse algum préstimo. Quis no entanto o destino que, quando estive na Escócia, me viesse parar às mãos um livrinho de bolso denominado “Food for Free”. Pois no tal livrinho aparece em destaque a “Fat-hen”, ou seja, “galinha-gorda”, nome popular do catassol na língua anglo-saxónica. Deram-lhe também o nome de “melde”, o qual entrou na toponímia local de muitas povoações e até foi levado para a Austrália, dando origem à cidade de Melbourn.

 

A “Fat-hen”, como hortaliça comestível desempenhou, ao longo da História, um papel central nas ilhas britânicas. Diz-se até que o seu valor alimentício já era amplamente reconhecido em épocas pré-históricas, visto ter-se encontrado vestígios da planta nos corpos preservados pelo gelo de gentílicos primitivos. A sua importância foi especialmente realçada durante as cíclicas crises ocasionadas por invernos rigorosíssimos, guerras e pestes devastadoras e pela consequente falta de alimentos. A introdução do espinafre acabou por reduzir drasticamente a importância desta erva silvestre. Parece que em Portugal, país farto de verduras mesmo durante o inverno, nunca a fome nos obrigou a comer catassóis.

 

Chenopodium vem do grego e significa literalmente “pata de ganso” devido à configuração das suas folhas romboidais. Album provém do latim (branco) e tem a ver com uma camada farinácea que reveste a parte de baixo da folhagem, permitindo distingui-la das outras plantas da mesma família.

 

É uma herbácea verde-acinzentada muito vigorosa que coloniza rápida e densamente o solo, já que cada planta pode produzir cerca de 3 mil sementes. Cresce na vertical, ramificando-se no cimo, podendo ultrapassar 1,5 m de altura. O seu caule é estriado, as folhas são alternas e pecioladas e as pequenas flores verdes esbranquiçadas são hermafroditas.

 

A planta possui proteínas e é rica em cálcio e ferro. Também tem hidratos de carbono, provitamina A, vitamina C, saponinas, nitratos e ácido oxálico. Entre as principais propriedades fitoterapêuticas são apontadas as seguintes: laxante, nutritiva, diurética, anti-helmíntica e hepática. As folhas tenras do catassol podem ser cozidas e consumidas como as do espinafre com a vantagem de possuírem maior percentagem de cálcio. No entanto, as folhas menos jovens têm um teor mais elevado de ácido oxálico e portanto não são recomendadas a quem sofre de reumatismo, artrite ou cálculos renais. Não há bela sem senão!

 

As sementes podem ser moídas e integrar as farinhas para panificação, ou consumidas em papas de cereais, mas devemos atender ao uso de herbicidas cujos efeitos tóxicos se acumulam nos respetivos grãos. Por fim, refere-se que esta planta adventícia é um excelente bioindicador da existência de azoto e de magnésio dos terrenos de semeadura.

 

Autor: Miguel Boieiro (Sociedade Portuguesa de Naturalogia)

                                                                                                                        
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